Morre, aos 97 anos, o professor emérito José Israel Vargas

Professor José Israel Vargas

O Departamento de Química da UFMG está de luto. Perdemos o nosso querido colega e amigo, Professor Emérito José Israel Vargas, falecido em 15 de maio de 2025, aos 97 anos.

Natural de Paracatu, bacharel em Química pela FAFI-UFMG (1952), teve uma trajetória de vida admirável. Foi professor, cientista de renome, gestor publico, embaixador e importante protagonista no desenvolvimento da política científica do país no século XX. Cultivou muitos amigos, foi generoso e atencioso com seus colegas e alunos e respeitado por todos que conviveram com ele, tanto pela sua inteligência e competência científica quanto pela sua sensibilidade, humanismo e integridade moral.

Recém-formado, foi para o ITA fazer um curso de reciclagem em física e lá teve seu primeiro emprego como auxiliar de ensino do Departamento de Física (1953-1955). Em seguida, tornou-se Professor Catedrático de Física no Colégio Municipal (1955-1957), defendendo uma tese sobre um método experimental para determinar a relação e/m do elétron, baseado nas pesquisas feitas no ITA. Na mesma época foi nomeado Professor Catedrático Interino de Físico-química e Química Superior da FAFI-UFMG e iniciou seu trabalho de pesquisa na área da físico-química nuclear no recém-criado Instituto de Pesquisa Nuclear (IPR, mais tarde CDTN) convidado pelo seu diretor, Prof. Francisco Magalhães Gomes.

Foi para Cambridge (Inglaterra) onde doutorou-se, com tese orientada por Alfred G. Maddock, importante pesquisador da área de energia nuclear, que havia trabalhado durante a segunda guerra no projeto Manhattan. Sua tese, sobre a influência de defeitos na rede cristalina na concentração de átomos de recuo gerados pela irradiação por nêutrons de várias amostras de cristais iônicos, gerou trabalhos que impactaram o desenvolvimento da radioquímica e posteriormente foram continuados na UFMG e no IPR, para onde ele regressou após o doutorado (1960).

Tornou-se Diretor do IPR (1962) e estabeleceu um acordo de cooperação com a França sobre aplicações da energia nuclear, como a aplicação de radioisótopos na indústria e o desenvolvimento do primeiro sistema de radioproteção. Na UFMG, orientou os seus dois primeiros alunos, Ruy Magnane Machado e José Caetano Machado e publicou com eles, nos Anais do Simpósio sobre Efeitos Químicos Associados a Reações Nucleares e Transformações Radioativas, realizado em Viena, em 1964, o primeiro trabalho de pesquisa em físico-química desenvolvido no DQ, estendendo o trabalho feito em Cambridge para amostras sólidas de complexos de metais de transição. Desenvolveu uma intensa colaboração com a Comissão Nacional de Energia Nuclear, presidida por Marcello Damy, tendo sido membro do grupo de trabalho que regulamentou a Lei que estabelecia o monopólio estatal para todas as atividades nucleares, Lei n/0. 4.118 de 1962, que ainda continua em vigor e da qual muito se orgulhava. Como membro do Conselho Deliberativo da CENEN, participou, representando o Brasil, de comissões na Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), destacando a que desenvolveu o sistema de inspeção que garantia a não proliferação de amas nucleares, o “Sistema de Salvaguardas”. Trabalhou para implantação do programa nuclear brasileiro autônomo, defendendo a proposta de construção de reatores de potência com uso de urânio natural.

Com o golpe militar de 1964, foi destituído dos cargos que ocupava e submetido a inquéritos policiais frequentes, o que o levou a aceitar o convite do Centro de Estudos Nucleares de Grenoble, na França, onde permaneceu por quase sete anos trabalhando exclusivamente em pesquisa e orientando dezenas de doutorandos brasileiros e franceses, até seu retorno ao Brasil em 1972.

De volta à UFMG, chefiou o Departamento de Química (1973-1975) e promoveu a vinda de vários dos seus ex-alunos franceses de Grenoble para colaborarem na orientação de estudantes no Curso de Pós-graduação em Química, e na implantação de laboratórios de pesquisa para estudos de radioquímica e de técnicas analíticas químicas e físicas. Foi consultor da FINEP, contribuindo com propostas para formulação de projetos e programas a serem apoiados, como o focado em minerais estratégicos, entre os quais o nióbio.

A convite de Aureliano Chaves, então Governador de MG, presidiu a Fundação João Pinheiro (1975-1976) onde criou a Diretoria de Tecnologia e Meio Ambiente (DTMA), a gênese da política ambiental de MG, e ajudou a criar, em 1977, a Secretaria de Ciência e Tecnologia de MG (SECT), a primeira do Brasil, tendo sido seu primeiro secretário. Na SECT incorporou o CETEC, que passou a ter identidade jurídica, e criou a Comissão Estadual de Meio Ambiente (COPAM), formatada como um órgão colegiado com a participação de membros da sociedade civil, que inspirou o modelo do Conselho Nacional de Política Ambiental (CONAMA), criado alguns anos depois.

No Governo do General João Batista Figueiredo, que teve Aureliano Chaves como vice-presidente a partir da Lei da Anistia, foi Secretário de Tecnologia Industrial do Ministério de Industria e Comércio (1979-1984), onde implantou o INMETRO.

Foi Ministro de Ciência e Tecnologia, no Governo de Itamar Franco (1992-1995) quando, utilizando os recursos da privatização da Companhia Siderúrgica Nacional, deu andamento a projetos estagnados, fortalecendo a infraestrutura de Ciência e Tecnologia do país. Entre eles, o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (CNPq), o Acelerador de Partículas (CBPF), o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) e a Rede Nacional de Pesquisa (RNP), onde foi implantada a Internet. Orgulhava-se também de ter iniciado a colaboração com a China na construção e lançamento de satélites, projeto que estava engavetado desde 1988, e da Agência Espacial Brasileira (AEB) com a implantação da base de Lançamento de Foguetes em Alcântara. O programa, ainda vigente, já desenvolveu e lançou vários satélites em órbita. Permaneceu no MCT (1995-1998) no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, quando criou o programa de apoio a centros de excelência, que posteriormente foram chamados Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia. Um dos mais relevantes, o Centro de Excelência do Programa Piloto para Conservação das Florestas, do Instituto de pesquisa da Amazonia (INPA) e do Museu Emilio Goeldi, dimensionou com confiabilidade o desflorestamento da Amazônia e passou a integrar o Sistema de Vigilância da Amazonia (SIVAM). Implantou a Comissão Nacional Técnica de Biossegurança (CNTBio), assinou a Lei de Patentes, Lei n/o. 9.279.

Em 1999 foi indicado assessor especial do Presidente da República para assuntos científicos, tecnológicos e do meio ambiente, com a missão de organizar a Comissão Interministerial para Mudanças Climáticas. Representou o Brasil em várias comissões internacionais, foi Delegado Permanente do Brasil junto à UNESCO em Paris (2000–2003) e presidiu o seu Conselho Executivo. Integrou o Conselho Diretor da Fundação Lampadia e participou do Conselho Diretivo da Fundação VITAE, quando promoveu vários projetos na área educacional, social e cultural. Presidiu a Academia de Ciências dos Países em Desenvolvimento (1992), foi Vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências (1981-1991) e seu presidente (1991-1993).

Em 2003, deixou o seu cargo na UNESCO e retornou ao Brasil. Passou a trabalhar com a modelagem matemática de processos e sistemas variados, desenvolveu um projeto de tecnologia para mineração no CETEC, e passou a frequentar semanalmente o Departamento de Química da UFMG, onde orientou estudantes de iniciação científica e acompanhou projetos de pesquisa, encantando os jovens que não o conheciam com sua inteligência. Recebeu inúmeras condecorações nacionais e internacionais. Em 2019, o Departamento de Química da UFMG o homenageou criando a Medalha José Israel Vargas do Mérito em Química, tendo sido o primeiro a recebê-la.

José Israel Vargas foi casado Com Aristela Domingues Vargas desde 1955 até o falecimento dela em 2024. Tiveram quatros filhas, Maria, Paula(falecida em 1981), Joana e Cláudia. Tinha muito orgulho das três terem escolhido a carreira docente, em particular de Maria que seguiu seus passos e tornou-se química. Deixou também quatro netos e duas bisnetas.

Sua biografia, com detalhes fascinantes das suas atividades, inclusive as aqui relatadas, está documentada no livro “Desafiando Fronteiras. Trajetória e vida do cientista José Israel Vargas”, editado pela UFMG e escrito por Ligia Maria Leite Pereira, sob encomenda da FAPEMIG, a partir de entrevistas com o próprio biografado e alguns dos seus colaboradores.

 

Heloiza Helena Ribeiro Schor

Professora Emérita do ICEx UFMG